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Comunicação e ciência: estratégias para consumo consciente de alimentos



* Fénelon do Nascimento Neto.

Existem diversas iniciativas no Brasil para prover informações sobre os alimentos. O Ministério da Saúde (MS) coloca à disposição dos consumidores um serviço telefônico gratuito onde é possível obter informações nutricionais que devem constar nos rótulos de alimentos, como proceder para reconhecer alimentos e orientações sobre os alimentos para fins especiais. A partir de 1999, a promoção e a proteção da saúde da população vêm sendo realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, vinculada ao MS, que mantém em seu portal um canal para falar com o cidadão sobre precauções ao consumir alimentos e esclarecer quais são os cuidados a serem observados para prevenir doenças de origem alimentar.

Nos últimos anos, as escolhas dos consumidores em escala mundial tendem a orientar-se para alimentos mais saudáveis, mais nutritivos, mais saborosos e produzidos segundo métodos sustentáveis e éticos.

A Organização Pan-Americana da Saúde-OPAS em registro do World Economic Forum / PAHO (2009), alerta sobre a crescente cobrança de saúde pela sociedade. Saúde e bem-estar são preocupações de todos, no entanto, os nossos estilos de vida, na forma de comer e beber, o sedentarismo e as tensões diárias na nossa casa e no ambiente de trabalho estão convergindo para um aumento nos gastos com saúde.

No Brasil, segundo a mesma fonte, nos próximos seis anos, três em cada quatro mulheres terão sobrepeso, mortes por diabetes aumentarão em 82% e o país terá perdido cumulativamente 49 bilhões de dólares devido a doenças crônicas. Os hábitos de vida e de alimentação, nas últimas décadas, tem contribuído bastante para esse quadro. Mais do que nunca os fast food entraram na vida dos brasileiros e as dietas estão mais centradas em gorduras, açúcares e sais. Soma-se a isto o baixo consumo de frutas e hortaliças, o sedentarismo e a perda do hábito da alimentação no lar em função da vida "moderna". Um dos reflexos mais nítidos dessa transformação é o sobrepeso ou seja a obesidade.

A camada da população mais pobre e menos escolarizada está enfrentando o problema com maior intensidade. Esta imagem preocupante é semelhante em toda a América Latina e no mundo. As causas suscitadoras da presente situação humana incluem escolhas pessoais, contextos culturais e uma gama de factores socioeconômicos, ambientais e políticos, que se encontram em grande parte fora do setor saúde, embora o setor da saúde desempenhe um papel crítico na avaliação do estado de saúde e dos riscos desta sobre a população, o desenvolvimento políticas e a garantia da qualidade dos serviços oferecidos.

Informação: fator determinante para o exercício da cidadania

As iniciativas de levar a informação ao público, conforme estudos a respeito da eficácia da rotulagem nutricional e programas de educação nutricional, junto ao consumidor de alimentos, levam a concluir que a maioria das pessoas não lê rótulos, se lê, não entende, e, se entende, tem dificuldades em incorporar a informação ao cotidiano. Saber se alimentar e comer o melhor está cada vez mais difícil para a população, já que esta não entende a comunicação própria, sendo ainda bombardeada pela propaganda consumista.

Projeto Além do Rótulo: a proposta de informação para a educação alimentar

Diante do contexto apresentado, a proposta de oferta de um serviço de informação estruturada no Projeto Além do Rótulo, liderado pela Embrapa Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro-RJ), consiste em levar a informação além da cadeia de produtiva, isto é, incluir o consumidor como o principal interessado nas políticas ligadas a alimentos e saúde, desenvolvidas pelas instituições públicas e privadas voltadas a produção, comercialização, pesquisa e desenvolvimento e legislação/regulamentação.

O etapa piloto reuniu informações nutricionais sobre mais de 120 alimentos in natura (frutas, legumes e verduras) ressaltando aspectos como qualidade nutricional, dicas de compra, higienização, armazenamento, preparo e consumo. As informações foram levantadas por um grupo de nutricionistas ligadas à Universidade Federal do Rio de Janeiro que buscaram na literatura científica dados confiáveis. Outra preocupação era ter um leque de alimentos de representativo do interesse dos consumidores de acordo com sua cultura e hábitos alimentares.

A etapa seguinte se deu na Embrapa Agroindústria de Alimentos onde a equipe de comunicação focou a questão da linguagem acessível ao público leigo, a clareza e a objetividade do conteúdo. O objetivo era tornar a informação compreensível para o mais variado público em função de sua escolaridade, idade e faixa social.
Formatado o conteúdo, entraram em cena os especialistas da área de informática que em parceria com a Embrapa Informática Agropecuária (Campinas-SP) e a Universidade Católica de Brasília construíram uma estratégia de exposição do conteúdo a partir de ferramentas como a árvore do conhecimento. A ferramenta permite organizar o conteúdo em inúmeras caixinhas, formando um mosaico hierárquico de informações que podem ser consultado de acordo com o interesse do usuário.

Para garantir o maior acesso a informação, a equipe do projeto criou um totem para ser acessado em supermercados. Um protótipo foi testado em feiras e eventos e obteve grande receptividade do consumidor. No totem, o consumidor toca na tela para abrir a informação que lhe interessa.

Nos últimos dois anos, inúmeras reuniões tem acontecido com instituições públicas e privadas para consolidar uma estratégia capaz de tornar o totem uma realidade em redes de supermercados, telecentros, postos de saúde e escolas.
Uma dessas discussões aconteceu com a Associação Brasileira de Supermercados - ABRAS e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que estão mediando a ação de lançamento do serviço junto a uma rede supermercadista prevista para o final deste ano em Brasília.

A tendência é de que isso seja concretizado em breve em virtude de algumas demandas identificadas: o consumidor está ávido por informações sobre alimentos e saúde; os governos precisam reduzir despesas com saúde e garantir melhor qualidade de vida à população; a cadeia produtiva de alimentos, de antes da porteira até a mesa do consumidor, tem sido pressionada para produzir e ofertar alimentos de melhor qualidade, seguros e produzidos em sistemas sustentáveis.

Enquanto isso, novos conteúdos são agregados à árvore do conhecimento, como por exemplo, questões relacionadas a alertas sobre contaminações, agrotóxicos, recolhimento de produtos, surtos e fraudes; práticas de produção; um observatório de ações de governo relacionadas a alimentos (acordos, consultas públicas, direitos do consumidor, globalização da saúde, iniciativas governamentais unilaterais); indicação de um guia de saúde ligado à alimentação e atividade física preconizado pelo Ministério da Saúde; hábitos alimentares e crendices populares.

* Fénelon do Nascimento Neto (fenelon@ctaa.embrapa.br), Mestre em Extensão Rural, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Home-page : www.ctaa.embrapa.br


Fonte: EMBRAPA AGROINDÚSTRIA DE ALIMENTOS




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